No meio da floresta Solidão havia uma vila. Ela era muito pequena,
era somente uma rua de terra mesmo, com casinhas e árvores dos dois lados.
Nessa vila morava uma garota, Milena. Ela morava com a tia, a mãe
e o pai eram falecidos a anos. A garota era muito triste e sozinha, ninguém
sabia o porquê.
No fim da rua de Milena, a floresta continuava. Ninguém da
pequenina vila ia lá, era a parte mais escura do bosque. Um dia, a tia da
garota achou um gatinho branco nas redondezas do bosque. Lembrou-se da sobrinha
e levou o gato para ver se a garota se animava.
Milena ficou até feliz. Foi dormir com o gatinho. Porém, no outro
dia, o bichano tinha escapado. A garota chorou muito, achava que era culpa dela.
A tia então comprou uma boneca de pano. Milena tinha quinze anos,
não brincava de boneca, mas amou o presente. Quando foi dormir, colocou a
boneca ao seu lado na pequena cama. Quando amanheceu, a boneca havia sumido, e
Milena pôs-se a chorar.
A mulher então achou um cachorrinho perdido na vila e levou para a
garota. Milena ficou muito feliz e dormiu com o cachorrinho. De manhã, ele
também havia sumido.
A tia não sabia mais o que fazer. Milena pensou ter decepcionado a
moça e resolveu fugir. Saiu de casa e se embrenhou no bosque, correndo sem
parar. Porém, ela tropeçou em um galho de árvore caído e se machucou muito.
Sozinha, perdida e com medo, começou a chorar baixinho, até que
ouviu uma voz:
–Eu posso te ajudar.
Era um garoto, na opinião de Milena, muito bonito. Mas o que
estaria ele fazendo na parte mais escura da floresta Solidão?
Ela estendeu a mão e o garoto a ajudou a levantar.
–Qual é seu nome? -Ela perguntou.
–Não posso lhe falar, Milena. -Ele respondeu e ela se assustou.
–Como você sabe meu nome?
Ele suspirou profundamente e falou calmo:
–Eu sou um anjo, Milena.
–Um anjo?
–É. E eu já te conhecia antes. Sou seu anjo da guarda.
–Mas se você é meu anjo da guarda, não era para meus pais estarem
vivos?
Ele suspirou de novo.
–Era o certo a fazer! Me desculpe!
–Você me fez não conseguir dormir! Você me fez ir esquentar
leite! Você me fez perder o controle do fogão e colocar fogo na casa! Você...-
Ela falou meio embaçada pelas lágrimas- Você me fez colocar fogo na casa e me
salvar! Você me fez não poder ajudar meus pais! Você matou meus pais! -Ela
berrava chorando.
–Não, Milena, eu não fiz isso! -Ele tentava convencer a garota.
–Fez sim! -Ela gritou- E provavelmente você fez meu gato escapar,
acabou com minha bonequinha e sumiu com meu cachorro! Você quer me deixar
isolada!
–Milena, eu só quero seu bem! -O anjo tentava acalmar a mortal.
–Não quer não! -Ela deu uma palavra final e voltou a correr, só
que de volta para casa.
No meio do caminho, achou três pedrinhas brilhantes, que ela
reconheceria em qualquer lugar por ser a favorita da mãe.
–Selenita... a pedra da Lua! -Ela reconheceu as pedrinhas. As
guardou no bolso do vestido e voltou para casa. Ela jurou que esqueceria esse
anjo da floresta.
Dois meses haviam se passado. Nas cidades além da floresta
extensa, uma guerra havia estourado, afetando a pequenina vila. Milena não
havia esquecido o anjo.
Em uma noite escura, ela pegou as pedrinhas de selenita que sempre
estavam com ela e ficou admirando as estrelas pela janela. Sua mãe as amava.
Lembrou-se de uma música que ela cantava quando Milena era pequena: "Se
essa rua, se essa rua fosse minha, eu mandava, eu mandava ladrilhar, com
pedrinhas, com pedrinhas de brilhantes, para o meu, para o meu amor passar."
Olhou novamente para as pedrinhas em sua mão. Ah, se ela pudesse
ladrilhar a rua de sua vila com selenitas!
Pensou em sua tia que estava nas cidades maiores longe da
floresta, cuidando dos feridos da guerra e chorou. Saiu de casa e entrou na
parte escura da floresta com apenas um lampião antigo.
Se sentou em uma pedra como se fosse um banquinho e continuou a
cantar a música: "Nessa rua, nessa rua, tem um bosque, que se chama, que
se chama Solidão. Dentro dele, dentro dele mora um anjo, que roubou, que roubou
meu coração."
Um anjo que ela não soube o nome. Um anjo que ela havia acusado.
Um anjo por qual ela se apaixonou.
Ao longe, ela ouviu uma bomba, fora da floresta. Ela se levantou.
Não que estivesse com medo, mas Milena havia achado mais selenitas, que
brilhavam a luz da lua.
A garota pegou as pedrinhas e fez um coração brilhante no chão. Quando
colocou a última pedrinha, ouviu uma voz conhecida:
–Que lindo!
O anjo estava lá, encostado em uma árvore.
–Desde quando está aí? -Ela perguntou rispidamente.
–Desde que você chegou. -Ele disse calmo -A propósito, eu conheço
a música que você estava cantando. Onde aprendeu ela?
–Minha mãe cantava para mim quando eu era pequena. -Ela disse mais calma- Só
que eu não sei o resto. Só até essa parte.
Ele suspirou, deu um sorriso e cantou: "Se eu roubei, se eu
roubei teu coração, é porque, é porque te quero bem. Se eu roubei, se eu roubei
teu coração, é porque tu roubaste o meu também."
Ela deu um pequeno sorriso. Ele chegou mais perto dela, ela fez o
mesmo.
–Os anjos não podem estar sempre fazendo milagres, Milena. Só quero
que entenda isso.- Ele disse no ouvido dela, e se afastou.
Milena segurou o anjo e o beijou. Quando se separaram, a garota
disse:
–Eu sei, eu sei.
Ele, como ela esperava, suspirou.
–Sinto muito, Milena. Eu vou ter que te decepcionar. Tenho que ir.
-Ele disse em um tom dolorido.
–Tudo bem!
Eles trocaram um último beijo e ele desapareceu, deixando Milena
olhando para o nada.
A floresta estava estranhamente silenciosa, como se os bichos
previssem algo ruim. Ela pegou o lampião, que estava no chão, sentou-se no pé
de uma árvore e adormeceu.
Quando acordou, meia hora depois, ouviu um barulho alto não tão
longe dali. E outro ainda mais perto. Imediatamente,Milena tentou correr de
volta à vila, mas estava realmente embrenhada na floresta. Iria se desesperar,
mas ouviu o anjo atrás dela:
–Esquece, Milena. Não tem escapatória. Só quero que se lembre...
-Um barulho mais perto -Eu te amo!
Não deu tempo da garota responder que também o amava, ele já havia
desaparecido. Ela novamente se sentou ao pé da árvore.
Quando estava pegando no sono, ela não sabia que o sono seria
eterno, pois quando dormiu jogaram uma bomba na parte da floresta em que
estava, depois na vila.
E o anjo, como da outra vez, não pôde fazer nada.